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Setor enfrenta momento delicado

  • - Airton Giombelli diz que o produtor está pagando para produzir

Excesso de oferta derruba preços e gera prejuízos. Produtor Airton Giombelli, de linha Forquilha afirma que a situação é insustentável.

O setor leiteiro de Santa Catarina enfrenta um dos momentos mais delicados dos últimos anos. A avaliação é do presidente do Sindileite de Santa Catarina, Selvino Giesel, que afirma que a cadeia produtiva — da indústria ao produtor — opera sob forte pressão de preços, excesso de oferta e importações elevadas.
“Parece que chegamos ao fundo do poço”, resume o dirigente. Segundo ele, o cenário atual é resultado de uma combinação de fatores: aumento expressivo da produção nacional, manutenção de volumes elevados de importação e consumo interno abaixo do esperado.
Em 2025, a produção brasileira de leite cresceu cerca de 10% em relação a 2024. O bom desempenho foi impulsionado por condições climáticas favoráveis, com boa produção de silagem e pastagens, além de custos mais baixos com concentrados utilizados na alimentação do rebanho. Nos anos anteriores, a estiagem e as enchentes no Rio Grande do Sul haviam prejudicado a produção. Já em 2025, o cenário climático contribuiu para ampliar a oferta de matéria-prima.
O problema, segundo Giesel, é que o consumo não acompanhou esse crescimento. “A lei da oferta e da procura é clara. Com maior oferta e consumo estagnado, o preço precisou cair para que o produto fosse vendido”, explica. O resultado foi a redução significativa no valor pago ao produtor e dificuldades também para as indústrias, que enfrentam margens apertadas e, em muitos casos, prejuízos operacionais.
Outro ponto central da preocupação do setor são as importações de leite e derivados do Mercosul, especialmente de Uruguai e Argentina. Embora o volume em 2025 tenha sido ligeiramente inferior ao de 2024, os três últimos anos registraram níveis historicamente elevados de entrada de produto estrangeiro no Brasil. O Sindileite acompanha investigações sobre possível prática de dumping, que é quando um país exporta mercadorias a preços inferiores aos praticados em seu próprio mercado interno ou abaixo do custo de produção.
De acordo com Giesel, essa prática prejudica diretamente a competitividade do produtor brasileiro. “Se o produto entra aqui a um preço inferior ao que é vendido no país de origem, isso distorce o mercado e compromete toda a cadeia”, afirma. Caso o dumping seja comprovado, o setor defende a adoção de medidas de proteção previstas nas regras comerciais.
Apesar do cenário adverso, os custos de produção não foram o principal vilão em 2025. Em muitos casos, ficaram estáveis ou até um pouco menores que em 2024, graças à boa produção de volumosos e à queda no preço dos grãos.
Ainda assim, a partir de agosto do ano passado, com a queda no valor pago pelo leite, os produtores começaram a sentir maior dificuldade financeira, situação que se agravou no final de 2025 e início de 2026. “O produtor não pode apenas empatar. Ele precisa de rentabilidade para continuar investindo e se manter na atividade. O mesmo vale para as indústrias”.
Enquanto isso, o consumidor tem encontrado promoções frequentes, especialmente no leite UHT. Porém, Giesel alerta para o risco de desestruturação da cadeia produtiva caso não haja recuperação dos preços. “Se não houver produtor e indústria no futuro, essa conta também chegará ao consumidor”.
Para 2026, a expectativa é de leve recuperação. A entrada da entressafra deve reduzir a oferta, ajudando a equilibrar o mercado. Além disso, os custos com alimentação animal tendem a permanecer controlados. Outro fator considerado positivo é o possível aumento da circulação de dinheiro por se tratar de ano eleitoral, o que pode estimular o consumo. Segundo dados do setor, cerca de 80% do consumo de lácteos no Brasil é feito por famílias com renda de até R$ 3.500 mensais — faixa diretamente impactada por inflação, juros e carga tributária.

Produtor

O produtor de leite Airton Giombelli, de linha Forquilha, concorda que que o setor está enfrentando uma das maiores crises dos últimos anos. “Temos custos elevados, dificuldades de acesso ao crédito e juros altos”. Comenta que “hoje, praticamente, pagamos para produzir. Nos sentimos desvalorizados e humilhados. A política em nível nacional parece fechar os olhos para a nossa realidade. Se continuar desse jeito, terei que abandonar a atividade”. A propriedade é conduzida exclusivamente pela família, recorrendo eventualmente a diaristas em períodos de maior demanda. A produção média mensal gira em torno de 40 mil litros de leite, com um plantel de aproximadamente 50 vacas em lactação, majoritariamente da raça holandesa. Considerando novilhas, bezerras e vacas secas, são cerca de 100 animais.

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